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terça-feira, 2 de outubro de 2012
PODERIA TER SIDO EU, de CASSIANO RICARDO
PODERIA TER SIDO EU
Cassiano Ricardo
I - O MENINO 1904
Quem não guardou, entre as recordações da infância,
o cego do realejo, com o seu pássaro?
Aquele que -- olhos brancos na órbita
da manhã rosa --
em cada esquina faz ressoar o seu lamurioso instrumento
à manivela?
O cego do realejo, com o seu pássaro,
parou em frente à casa onde nasci (era eu menino)
e aí tocou a sua música mais dolorosa,
mais estridente.
Os transeuntes se aglomeraram em torno.
E logo o pássaro, por um vão da gaiola,
que havia ao lado do instrumento,
canário mágico, que parecia obediente a uma
determinação invisível,
me trouxe, preso ao bico,
um pequeno bilhete azul, retangular,
onde se achava escrito o meu futuro.
Hoje eu perguntaria :
a grade da gaiola de onde o pássaro
distribuía o futuro,
não era, ao mesmo tempo, uma outra grade
-- a minha, a em que eu é que estou preso?
II - O PÁSSARO E OS ACONTECIMENTOS
Mas, que dizia o pássaro
quando me fez presente do futuro?
Que o cometa Halley me derramaria prata
nos olhos; derramou.
Que eu ficaria louco. (Fiquei.)
Pois ando, só, de lunocípede.
Que eu morreria, ao todo, sete vezes
(já morri quatro.)
Que eu seria obrigado, por ofício,
a atravessar salões de baile (atravessei)
como um besouro rútilo a se debater numa floresta
de espelhos;
a ser exatamente (e eu fui)
o que menos quisesse ser, a parecer
o que menos fosse,
no mundo, onde é proibido ser sincero.
Que eu seria parente dos pássaros
(e eu sou mesmo)
por causa da asa, irmã do meu pensamento.
Que o santo de minha predileção
seria S. Francisco de Assis.
Realmente, S. Francisco é o meu santo.
(Aquele com quem aprendo a ser simples,
simples como a água, e irmão do pirilampo.)
Que os meus maiores inimigos
seriam a complicação, o ornato,
o colarinho duro, o parnasianismo
e a gravata.,
e -- de fato -- a minha luta
é a da humildade
contra a complicação, o ornamental,
o excesso.
(Sou um bicho de concha
sem nenhuma fosforescência.)
Que eu não seria presidente da República.
(Não fui.)
Mas eu não fui, também,
outras coisas, obscuras ou brilhantes,
que poderia ter sido no baralho humano
no espelho,
ou no cruzamento de uma rua com outra.
III - MONÓLOGO, SOB UMA ÁRVORE DA PRAÇA ONZE
Ainda menino, e eu vi passar o homicida.
Ia levado pelos policiais, seguido
pela multidão, que lhe queria ver o rosto,
pálido, transfigurado.
Imaginei-me em seu lugar e, através desse pensamento
“poderia ter sido eu”,
me vi arrastado, preso, esbofeteado
por meus irmãos, de rua em rua.
Meteram-me na prisão, queriam que eu falasse
o que não sabia. Amarraram-me as mãos,
uma à outra, as duas para o lado das costas,
e o escrivão -- sem que eu dissesse nada --
bateu, à máquina, os monossílabos -- que arrancou ao
meu corpo,
como se arrancam folhas de uma árvore.
Voltei do pesadelo, examinei a minha roupa,
não havia sinal de sangue, não havia sido
eu.
O que havia era o tráfego, os sinais luminosos,
os títulos dos jornais,
as cruzes, as encruzilhadas, que dançavam
em torno do meu ser, a dança mágica
do eu não ter sido.
O cego do realejo e o pássaro fizeram,
muitas vezes, a volta ao mundo.
As estrelas passaram voando em caminho do oeste.
A esperança moveu a roda verde.
E agora
estou embaixo desta árvore em flor,
mas ainda tenho o coração batendo:
poderia ter sido eu.
E agora,
a paisagem caminha pra um lado, a lua
pra outro, dividindo a noite pelo meio.
Só as árvores é que ficam sentadas. Só eu
estou sentado sob esta árvore. Mas...
(ainda tenho o coração batendo)
poderia ter sido eu!
IV - A ROSA DAS TRÊS GRAÇAS
Mas não o que matou, somente,
poderia ter sido eu.
O que roubou, o que cobiçou o bem do próximo,
o que falsificou a assinatura do gerente de banco,
o que assaltou na rua o transeunte,
o que embarcou por um navio o corpo em sangue e
ouro da mulher assassinada
qualquer deles, enfim, no signo da balança,
poderia ter sido eu.
Por um minuto a menos -- entre a rosa e o luto, --
ou a mais, no punhal da hora exata,
na corola dos números de prata.
A quem agradecer o eu não ter sido ?
A mim mesmo? Tanto egoísmo, fluorescente,
não caberia num vidro assim tão frágil.
A Deus? será reconhecer que Deus
é que escolhe -- Ele próprio -- os que devem ser maus,
entre as cabeças louras da inocência.
Não será a Deus, indiferente a este jogo,
em que os culpados é que fazem os inocentes?
Em que uns têm que fazer o mal
para que os outros não o façam. Entre doze,
um está escrito.
Será ao próprio ladrão, ao falsificador,
ao que roubou ao próximo o seu único amor,
que devo agradecer o terem feito
o que não fiz?
(Os inocentes deverão beijar, como um pássaro às flores,
as mãos dos culpados.)
E saio entre a multidão, e corro a procurá-los,
aqui e ali, na floresta andarilha.
Entre ângulos faciais, cada qual mais obscuro.
(Que eles estarão, sempre, no desencontro de uma rua
com outra.)
No afã de lhes levar meu agradecimento.
Mas eles compreenderão meu agradecimento?
Compreenderão que lhes agradeço é a graça
de terem feito o que não fiz? ou de haverem cumprido,
em meu lugar, uma sentença bíblica?
Rua cheia de rostos glabros nas janelas
da noite mais vertical que universal.
Anúncios que ora acendem, ora apagam (não havia)
as sílabas verdes do (sido eu) dicionário
noturno.
(Não pensarão que sou um louco, um cúmplice,
um detetive, um oficial de justiça?)
As palavras caídas na água das calçadas.
Sido. Havia. Não. Eu.
A cruz móvel das ruas, cruz do povo,
e as quatro asas: o oeste, o leste, o norte, o sul,
já inúteis em meu corpo
à hora do desastre, um grito, a interrupção do trânsito.
(Poderia ter sido eu!)
V - O IRMÃO INGLÓRIO
Mas, como agradecer ao assassino,
ao ladrão. ao falsário -- o que fizeram,
sem me pungir, além do que fizeram?
Se a dor dos outros nunca foi tão minha?
no caminho que vai entre as estrelas
e o número de uma porta de casa?
no jogo das fatalidades, rosa e luto?
Se não encontro a rosa das três graças?
Se nunca fui tão responsável
pelo que os outros fazem, como nesta hora
simbólica e putativa?
Se sou eu, entre os bichos e as flores,
irmão inglório mas obrigatório
dos que -- como eu -- nasceram homens,
o coração batendo entre Abel e Caim?
Se escorre, por meus olhos,
o sangue do transeunte?
VI - AGRADECIMENTO, POR UM VÃO DE GRADE
Ah, eu quero agradecer -- agora o sei -- é ao pássaro
inocente
por não ter incluído
esses terríveis acontecimentos,
essas sílabas verdes no destino
que me entregou pelo vão da gaiola
enquanto o cego (para isso ele era cego)
tocava o seu realejo.
sábado, 1 de maio de 2010
TODOS TENEMOS HAMBRE
TODOS TENEMOS HAMBRE
Bien sabes que todos tenemos hambre: hambre de pan, hambre de
amor, hambre de conocimiento, hambre de paz...
Este mundo es un mundo de hambrientos.
El hambre de pan, melodramática, soflamera, ostentosa, es la que
más nos conmueve, pero no es la más digna de conmovernos.
¿Qué me dices del hambre de amor? ¿Qué me dices de aquél que
quiere que le quieran y pasa por la vida viendo en todas partes
mujeres hermosas, sin que ninguna le dé una migaja de cariño?
¿Pues y el hambre de conocimiento?
¿El hambre de pobre espíritu que ansía saber y choca brutalmente
contra el zócalo de granito de la Esfinge?
¿Y el hambre de paz que atormenta al peregrino inquieto, obligado
a desgarrarse los pies y el corazón en los caminos?
Todos tenemos hambre, sí y todos, por lo tanto, podemos hacer caridad.
Aprende a conocer el hambre del que te habla... en el concepto de que,
fuera del hambre de pan, todas se esconden. Cuanto más inmensas, más escondidas...
Amado Nervo
Livro: Plenitud.
Bien sabes que todos tenemos hambre: hambre de pan, hambre de
amor, hambre de conocimiento, hambre de paz...
Este mundo es un mundo de hambrientos.
El hambre de pan, melodramática, soflamera, ostentosa, es la que
más nos conmueve, pero no es la más digna de conmovernos.
¿Qué me dices del hambre de amor? ¿Qué me dices de aquél que
quiere que le quieran y pasa por la vida viendo en todas partes
mujeres hermosas, sin que ninguna le dé una migaja de cariño?
¿Pues y el hambre de conocimiento?
¿El hambre de pobre espíritu que ansía saber y choca brutalmente
contra el zócalo de granito de la Esfinge?
¿Y el hambre de paz que atormenta al peregrino inquieto, obligado
a desgarrarse los pies y el corazón en los caminos?
Todos tenemos hambre, sí y todos, por lo tanto, podemos hacer caridad.
Aprende a conocer el hambre del que te habla... en el concepto de que,
fuera del hambre de pan, todas se esconden. Cuanto más inmensas, más escondidas...
Amado Nervo
Livro: Plenitud.
TU ME QUIERES BLANCA, de Alfonsina Storni
TU ME QUIERES BLANCA
Tú me quieres alba,
Me quieres de espumas,
Me quieres de nácar.
Que sea azucena
Sobre todas, casta.
De perfume tenue.
Corola cerrada
Ni un rayo de luna
Filtrado me haya.
Ni una margarita
Se diga mi hermana.
Tú me quieres nívea,
Tú me quieres blanca,
Tú me quieres alba.
Tú que hubiste todas
Las copas a mano,
De frutos y mieles
Los labios morados.
Tú que en el banquete
Cubierto de pámpanos
Dejaste las carnes
festejando a Baco.
Tú que en los jardines
Negros del Engaño
Vestido de rojo
Corriste al Estrago.
Tú que el esqueleto
Conservas intacto
No sé todavía
Por cuáles milagros,
Me pretendes blanca
(Dios te lo perdone),
Me pretendes casta
(Dios te lo perdone),
¡Me pretendes alba!
Huye hacia los bosques,
Vete a la montaña;
Límpiate la boca;
Vive en las cabañas;
Toca con las manos
La tierra mojada;
Alimenta el cuerpo
Con raíz amarga;
Bebe de las rocas;
Duerme sobre escarcha;
Renueva tejidos
Con salitre y agua;
Habla con los pájaros
Y lévate al alba.
Y cuando las carnes
Te sean tornadas,
Y cuando hayas puesto
En ellas el alma
Que por las alcobas
Se quedó enredada,
Entonces, buen hombre,
Preténdeme blanca,
Preténdeme nívea,
Preténdeme casta.
Alfonsina Storni, poeta argentina
1892-1938
Tú me quieres alba,
Me quieres de espumas,
Me quieres de nácar.
Que sea azucena
Sobre todas, casta.
De perfume tenue.
Corola cerrada
Ni un rayo de luna
Filtrado me haya.
Ni una margarita
Se diga mi hermana.
Tú me quieres nívea,
Tú me quieres blanca,
Tú me quieres alba.
Tú que hubiste todas
Las copas a mano,
De frutos y mieles
Los labios morados.
Tú que en el banquete
Cubierto de pámpanos
Dejaste las carnes
festejando a Baco.
Tú que en los jardines
Negros del Engaño
Vestido de rojo
Corriste al Estrago.
Tú que el esqueleto
Conservas intacto
No sé todavía
Por cuáles milagros,
Me pretendes blanca
(Dios te lo perdone),
Me pretendes casta
(Dios te lo perdone),
¡Me pretendes alba!
Huye hacia los bosques,
Vete a la montaña;
Límpiate la boca;
Vive en las cabañas;
Toca con las manos
La tierra mojada;
Alimenta el cuerpo
Con raíz amarga;
Bebe de las rocas;
Duerme sobre escarcha;
Renueva tejidos
Con salitre y agua;
Habla con los pájaros
Y lévate al alba.
Y cuando las carnes
Te sean tornadas,
Y cuando hayas puesto
En ellas el alma
Que por las alcobas
Se quedó enredada,
Entonces, buen hombre,
Preténdeme blanca,
Preténdeme nívea,
Preténdeme casta.
Alfonsina Storni, poeta argentina
1892-1938
DEDICATÓRIA, de Malba Tahan
DEDICATÓRIA
Escuta, beduína, escuta! Quando abandonaste a
minha tenda tomei do calã e escrevi o teu
nome na capa do meu Alcorão!
E todos os dias, no silêncio da prece, a saudade
vem, como o tigre dos juncais, bramir no fundo
de meu coração.
Es-san-aleija! A minha promessa, ó beduína!,
Não foi escrita na areia incerta do deserto.
Por isso, é que verás o teu nome repetido em todas
as páginas deste livro.
Só Allah sabe a verdade! Uassalã!
Oásis de Halib, 7 da lua de Rabiah de 1904.
MALBA TAHAN
Escuta, beduína, escuta! Quando abandonaste a
minha tenda tomei do calã e escrevi o teu
nome na capa do meu Alcorão!
E todos os dias, no silêncio da prece, a saudade
vem, como o tigre dos juncais, bramir no fundo
de meu coração.
Es-san-aleija! A minha promessa, ó beduína!,
Não foi escrita na areia incerta do deserto.
Por isso, é que verás o teu nome repetido em todas
as páginas deste livro.
Só Allah sabe a verdade! Uassalã!
Oásis de Halib, 7 da lua de Rabiah de 1904.
MALBA TAHAN
Na Luz, de Cruz e Sousa
Na Luz
De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme restrita.
Dorme na paz sacramental, bendita
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.
Sereia celestial entre as sereias
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.
Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplidões supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.
Cruz e Sousa
João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme restrita.
Dorme na paz sacramental, bendita
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.
Sereia celestial entre as sereias
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.
Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplidões supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.
Cruz e Sousa
João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Para ser grande, Fernando Pessoa
Para ser grande
Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa
em Ricardo Reis
Este post é uma big homenagem à minha amiga evolutiva, minha irmã, minha mestra, Jocenice Ribeiro.
Jô Bahia, de luz radiante, trabalhadora de muita fibra, de carne e osso, de um coração do tamanho de sua
compreensão do mundo. Magic Jô. Trabalhamos juntas na Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Nós duas somos um caso sério, Lucas Lacaz.
Foi a Jocenice quem me "mostrou" o poema Para ser grande.
Jô, axé e muita gratidão. Por tudo.
Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa
em Ricardo Reis
Este post é uma big homenagem à minha amiga evolutiva, minha irmã, minha mestra, Jocenice Ribeiro.
Jô Bahia, de luz radiante, trabalhadora de muita fibra, de carne e osso, de um coração do tamanho de sua
compreensão do mundo. Magic Jô. Trabalhamos juntas na Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Nós duas somos um caso sério, Lucas Lacaz.
Foi a Jocenice quem me "mostrou" o poema Para ser grande.
Jô, axé e muita gratidão. Por tudo.
Tarde sertaneja, de Cassiano Ricardo
Tarde sertaneja
Eu ia andando pelo caminho
em pleno sertão, o cafezal tinha ficado lá longe...
Foi quando escutei o seu canto
que me pareceu o soluço sem-fim da distância...
A ânsia de tudo o que é longo como as palmeiras
A saudade de tudo o que é comprido como os rios
O lamento de tudo o que é roxo como a tarde...
O choro de tudo o que fica chorando por estar longe...
bem longe.
Cassiano Ricardo -
Quarto ocupante da Cadeira 31, eleito em 9 de setembro de 1937, na sucessão de Paulo Setúbal e recebido pelo Acadêmico Guilherme de Almeida em 28 de dezembro de 1937. Recebeu os Acadêmicos Fernando de Azevedo e Menotti del Picchia.
Cassiano Ricardo (C. R. Leite), jornalista, poeta e ensaísta, nasceu em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974. Eleito em 9 de setembro de 1937 para a Cadeira n. 31, na sucessão de Paulo Setúbal, foi recebido em 28 de dezembro de 1937 pelo acadêmico Guilherme de Almeida. Pã (1917) de 50 e 60. A sua obra Jeremias sem-chorar, de 1964, é bem representativa desta posição de um poeta experimental que veio de bem longe em sua vivência estética e, nesse livro, está em pleno domínio das técnicas gráfico-visuais vanguardistas.
Leia mais sobre vida e obra de Cassiano Ricardo no site da Academia Brasileira de Letras - http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=390&sid=295
Pedro, caríssimo,
Sobre a tristeza que a gente estava conversando ontem preciso te dizer algo.
Aqui em São José um músico maravilhoso, Joca Freire, musicou 10 poemas de Cassiano Ricardo + outra música que ele compôs fazendo uma mescla de vários poemas de Cassiano e + a voz do nosso poeta maior declamando Era em S. José dos Campos.
Tarde sertaneja é um desses poemas musicados. Liguei urgentemente pro Joca depois de ouvir o CD. Vou copiar pra você, não tem pra vender, acho que não. [Agora já tem].
Eu disse a ele: Joca, chorei e muito quando ouvi esse poema. Joca me contou que foi o primeiro poema do CD a ser musicado.
Em outubro acontece aqui há 36 anos a Semana Cassiano Ricardo e todo ano faço palestras sobre vida e obra de Casssiano. Numa dessas palestras aos professores na escola Joaquim de Moura Candelária, -- agora moro perto dessa escola, -- declamei esse poema antes de apresentar o CD, falar sobre Cassiano Ricardo e Joca Freire.
Uma das professoras chorou muito ao ouvir. Teve uma catarse. Me emocionei. Liguei pro Joca e relatei o fato.Esse poema me faz lembrar Jung e o inconsciente coletivo. Acredito que nós, mesmo sem sabermos porque, temos essa tristeza. Assim como, não tem hora que a gente tem uma alegria besta sem que saibamos de onde vem?
Portanto, quero desdizer, amigo Pedrinho, quando disse ontem que temos de curtir a tristeza, mas com motivo. Não necessariamente. A gente acaba acessando algum núcleo interno. Nosso alma sabe porquê. Deus o sabe.
Resolvi postar o poema com o email enviado ao meu amigo de Santo André, Pedro Kowaliuskas, também poeta e declamador de poesias, até de Castro Alves e Lord Byron. E dirige o carro cantando músicas de Nelson Gonçalves em voz alta Sentiu firmeza?
Ano? 36a. Semana Cassiano Ricardo. I don't remember. Sorry! Preciso checar.
Eu ia andando pelo caminho
em pleno sertão, o cafezal tinha ficado lá longe...
Foi quando escutei o seu canto
que me pareceu o soluço sem-fim da distância...
A ânsia de tudo o que é longo como as palmeiras
A saudade de tudo o que é comprido como os rios
O lamento de tudo o que é roxo como a tarde...
O choro de tudo o que fica chorando por estar longe...
bem longe.
Cassiano Ricardo -
Quarto ocupante da Cadeira 31, eleito em 9 de setembro de 1937, na sucessão de Paulo Setúbal e recebido pelo Acadêmico Guilherme de Almeida em 28 de dezembro de 1937. Recebeu os Acadêmicos Fernando de Azevedo e Menotti del Picchia.
Cassiano Ricardo (C. R. Leite), jornalista, poeta e ensaísta, nasceu em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974. Eleito em 9 de setembro de 1937 para a Cadeira n. 31, na sucessão de Paulo Setúbal, foi recebido em 28 de dezembro de 1937 pelo acadêmico Guilherme de Almeida. Pã (1917) de 50 e 60. A sua obra Jeremias sem-chorar, de 1964, é bem representativa desta posição de um poeta experimental que veio de bem longe em sua vivência estética e, nesse livro, está em pleno domínio das técnicas gráfico-visuais vanguardistas.
Leia mais sobre vida e obra de Cassiano Ricardo no site da Academia Brasileira de Letras - http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=390&sid=295
Pedro, caríssimo,
Sobre a tristeza que a gente estava conversando ontem preciso te dizer algo.
Aqui em São José um músico maravilhoso, Joca Freire, musicou 10 poemas de Cassiano Ricardo + outra música que ele compôs fazendo uma mescla de vários poemas de Cassiano e + a voz do nosso poeta maior declamando Era em S. José dos Campos.
Tarde sertaneja é um desses poemas musicados. Liguei urgentemente pro Joca depois de ouvir o CD. Vou copiar pra você, não tem pra vender, acho que não. [Agora já tem].
Eu disse a ele: Joca, chorei e muito quando ouvi esse poema. Joca me contou que foi o primeiro poema do CD a ser musicado.
Em outubro acontece aqui há 36 anos a Semana Cassiano Ricardo e todo ano faço palestras sobre vida e obra de Casssiano. Numa dessas palestras aos professores na escola Joaquim de Moura Candelária, -- agora moro perto dessa escola, -- declamei esse poema antes de apresentar o CD, falar sobre Cassiano Ricardo e Joca Freire.
Uma das professoras chorou muito ao ouvir. Teve uma catarse. Me emocionei. Liguei pro Joca e relatei o fato.Esse poema me faz lembrar Jung e o inconsciente coletivo. Acredito que nós, mesmo sem sabermos porque, temos essa tristeza. Assim como, não tem hora que a gente tem uma alegria besta sem que saibamos de onde vem?
Portanto, quero desdizer, amigo Pedrinho, quando disse ontem que temos de curtir a tristeza, mas com motivo. Não necessariamente. A gente acaba acessando algum núcleo interno. Nosso alma sabe porquê. Deus o sabe.
Resolvi postar o poema com o email enviado ao meu amigo de Santo André, Pedro Kowaliuskas, também poeta e declamador de poesias, até de Castro Alves e Lord Byron. E dirige o carro cantando músicas de Nelson Gonçalves em voz alta Sentiu firmeza?
Ano? 36a. Semana Cassiano Ricardo. I don't remember. Sorry! Preciso checar.
DEUS TE LIVRE, POETA
DEUS TE LIVRE, POETA...
Deus te livre, poeta,
de verter no cálice de teu irmão
a menor gota de amargura.
Deus te livre, poeta,
de interceptar sequer com tua mão
a luz que o sol presenteia a uma criatura.
Deus te livre, poeta,
de escrever uma estrofe que contriste;
de turvar com teu ar enfadonho
e tua lógica triste
a lógica divina de um sonho;
de obstruir o caminho, o intento
que percorra a mais humilde planta;
de destruir a pobre folha ao vento;
de entorpecer, nem com o mais suave
dos pesos, o ímpeto de uma ave
ou de um belo ideal que se levanta.
Tem para todo júbilo, a santa
simpatia acolhedora que o aprova;
põe uma nota nova
em toda voz que canta,
e retira, com teus sons,
um mínimo espinho em cada prova
que torture aos maus e aos bons.
Amado Nervo
Marzo, 1916.
Livro: Elevación.
Amado Nervo, pseudônimo de Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo (Tepic, Nayarit 27 de agosto de 1870 — Montevidéu, 24 de maio de 1919), é poeta mexicano.
O romance O bachiller (1895) apresenta caracaterísticas naturalistas. Os livros de poemas Pérolas negras e Místicas (1898) têm características que indicam influência da poesia modernista.
Obra
O bachiller (1895)
Pérolas negras (1898)
Místicas (1898)
O êxodo e as flores do caminho (1902)
Os jardins interiores (1905)
Em voz baixa (1909)
Serenidade (1914)
Elevação (1917)
Plenitude (1918)
A amada imóvel (1922)
Poesia de Amado Nervo - Canto XXIV
Fonte Biografia: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Deus te livre, poeta,
de verter no cálice de teu irmão
a menor gota de amargura.
Deus te livre, poeta,
de interceptar sequer com tua mão
a luz que o sol presenteia a uma criatura.
Deus te livre, poeta,
de escrever uma estrofe que contriste;
de turvar com teu ar enfadonho
e tua lógica triste
a lógica divina de um sonho;
de obstruir o caminho, o intento
que percorra a mais humilde planta;
de destruir a pobre folha ao vento;
de entorpecer, nem com o mais suave
dos pesos, o ímpeto de uma ave
ou de um belo ideal que se levanta.
Tem para todo júbilo, a santa
simpatia acolhedora que o aprova;
põe uma nota nova
em toda voz que canta,
e retira, com teus sons,
um mínimo espinho em cada prova
que torture aos maus e aos bons.
Amado Nervo
Marzo, 1916.
Livro: Elevación.
Amado Nervo, pseudônimo de Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo (Tepic, Nayarit 27 de agosto de 1870 — Montevidéu, 24 de maio de 1919), é poeta mexicano.
O romance O bachiller (1895) apresenta caracaterísticas naturalistas. Os livros de poemas Pérolas negras e Místicas (1898) têm características que indicam influência da poesia modernista.
Obra
O bachiller (1895)
Pérolas negras (1898)
Místicas (1898)
O êxodo e as flores do caminho (1902)
Os jardins interiores (1905)
Em voz baixa (1909)
Serenidade (1914)
Elevação (1917)
Plenitude (1918)
A amada imóvel (1922)
Poesia de Amado Nervo - Canto XXIV
Fonte Biografia: Wikipédia, a enciclopédia livre.
DIOS TE LIBRE, POETA, de Amado Nervo
DIOS TE LIBRE, POETA...
Dios te libre, poeta,
de verter en el cáliz de tu hermano
la más pequeña gota de amargura.
Dios te libre, poeta,
de interceptar siquiera con tu mano
la luz que el sol regale a una criatura.
Dios te libre, poeta,
de escribir una estrofa que contriste;
de turbar con tu ceño
y tu lógica triste
la lógica divina de un ensueño;
de obstruir el sendero, la vereda
que recorra la más humilde planta;
de quebrantar la pobre hoja que rueda;
de entorpecer, ni con el más suave
de los pesos, el ímpetu de un ave
o de un bello ideal que se levanta.
Ten para todo júbilo, la santa
sonrisa acogedora que lo aprueba;
pon una nota nueva
en toda voz que canta,
y resta, por lo menos,
un mínimo aguijón a cada prueba
que torture a los malos y a los buenos.
Amado Nervo
Marzo, 1916.
Livro: Elevación.
Dios te libre, poeta,
de verter en el cáliz de tu hermano
la más pequeña gota de amargura.
Dios te libre, poeta,
de interceptar siquiera con tu mano
la luz que el sol regale a una criatura.
Dios te libre, poeta,
de escribir una estrofa que contriste;
de turbar con tu ceño
y tu lógica triste
la lógica divina de un ensueño;
de obstruir el sendero, la vereda
que recorra la más humilde planta;
de quebrantar la pobre hoja que rueda;
de entorpecer, ni con el más suave
de los pesos, el ímpetu de un ave
o de un bello ideal que se levanta.
Ten para todo júbilo, la santa
sonrisa acogedora que lo aprueba;
pon una nota nueva
en toda voz que canta,
y resta, por lo menos,
un mínimo aguijón a cada prueba
que torture a los malos y a los buenos.
Amado Nervo
Marzo, 1916.
Livro: Elevación.
Versos Amargos, de Abu Al-Ala Al-Maarrí
Versos Amargos
Erram todos: muçulmanos, cristãos, judeus,
Dois homens apenas formam a seita universal:
O homem inteligente, sem religião,
E o homem religioso, sem inteligência.
Nas suas igrejas, os cristãos recitam as Escrituras;
Nas suas sinagogas, os judeus salmodiam sua Thora,
Religiões que se tornaram simples seitas, todas iguais.
Cada credo lança o anátema sobre os adeptos dos outros credos
Não escolhi nascer,
Não posso impedir que envelheça ou morra.
Que mais posso escolher?
Não comas o que foi tirado do mar com violência, nem o alimento
proveniente de animais degolados.
Não te alimentes com ovos, pois as suas mães querem fazer deles
pequenos viventes, e não coisas mortas.
Não prendas os pássaros descuidados com armadilhas.
Não toques no mel das abelhas, que saíram de manhã cedo para
colhê-lo nas folhas odorosas.
Elas não o guardaram para servir a outros. Não o juntaram para fazerem
liberalidades.
Limpei minhas mãos de tudo isso.
Abu Al-Ala Al-Maarri (974-1078), nasceu na pequena aldeia Síria de Maarrat Na-Numan. Tinha quatro anos quando a varíola vedou seus olhos para sempre. Mas mesmo cego, “via mais longe do que os outros homens”, afirma um de seus biógrafos. Graças ao seu gênio e a esforços constantes, tornou-se um dos homens mais cultos de sua época e um dos filósofos mais profundos de todos os tempos.
A filosofia de Abu Al-Ala se distingue pelo pessimismo, o ceticismo, a predominância dada à Razão sobre a Fé, uma luta agressiva contra a injustiça e a estupidez, e uma compaixão infinita para com todos os seres vivos.
Depois postarei a fonte, Okay?
Erram todos: muçulmanos, cristãos, judeus,
Dois homens apenas formam a seita universal:
O homem inteligente, sem religião,
E o homem religioso, sem inteligência.
Nas suas igrejas, os cristãos recitam as Escrituras;
Nas suas sinagogas, os judeus salmodiam sua Thora,
Religiões que se tornaram simples seitas, todas iguais.
Cada credo lança o anátema sobre os adeptos dos outros credos
Não escolhi nascer,
Não posso impedir que envelheça ou morra.
Que mais posso escolher?
Não comas o que foi tirado do mar com violência, nem o alimento
proveniente de animais degolados.
Não te alimentes com ovos, pois as suas mães querem fazer deles
pequenos viventes, e não coisas mortas.
Não prendas os pássaros descuidados com armadilhas.
Não toques no mel das abelhas, que saíram de manhã cedo para
colhê-lo nas folhas odorosas.
Elas não o guardaram para servir a outros. Não o juntaram para fazerem
liberalidades.
Limpei minhas mãos de tudo isso.
Abu Al-Ala Al-Maarri (974-1078), nasceu na pequena aldeia Síria de Maarrat Na-Numan. Tinha quatro anos quando a varíola vedou seus olhos para sempre. Mas mesmo cego, “via mais longe do que os outros homens”, afirma um de seus biógrafos. Graças ao seu gênio e a esforços constantes, tornou-se um dos homens mais cultos de sua época e um dos filósofos mais profundos de todos os tempos.
A filosofia de Abu Al-Ala se distingue pelo pessimismo, o ceticismo, a predominância dada à Razão sobre a Fé, uma luta agressiva contra a injustiça e a estupidez, e uma compaixão infinita para com todos os seres vivos.
Depois postarei a fonte, Okay?
CANTO FÚNEBRE, de Edna St.Vincent Millay
CANTO FÚNEBRE
Não me resigno que na dura terra amantes corações sejam encerrados.
Assim é e assim será, como sempre foi na era mais distanciada:
Para as trevas lá vão os sábios e os belos. Coroados
De lírios ou de louros, lá vão; mas não estou resignada.
Contigo, dentro da terra, amantes e pensadores
Misturam-se com o pó anônimo revolvido.
Um fragmento do que conheces, de tuas dores,
Uma fórmula, uma frase rica, -- mas o melhor está perdido.
A resposta aguda e pronta, o riso, o amor, o olhar, o gesto.
Foram-se para alimentar as rosas. Belo e jucundo
É o lírio. Cheirosa é a rosa. Bem sei, mas protesto.
Mais preciosa era a luz em teus olhos do que todas as rosas do mundo.
Dentro, lá dentro no fundo das trevas da morte
Vão ter o belo, o meigo, o bom. No Silêncio do nada
Vão desaparecer o inteligente, o gracioso, o forte
Eu sei. Mas não aprovo. E não estou resignada.
Edna St.Vincent Millay
Tradução: Alphonsus de Guimarães Filho
Não me resigno que na dura terra amantes corações sejam encerrados.
Assim é e assim será, como sempre foi na era mais distanciada:
Para as trevas lá vão os sábios e os belos. Coroados
De lírios ou de louros, lá vão; mas não estou resignada.
Contigo, dentro da terra, amantes e pensadores
Misturam-se com o pó anônimo revolvido.
Um fragmento do que conheces, de tuas dores,
Uma fórmula, uma frase rica, -- mas o melhor está perdido.
A resposta aguda e pronta, o riso, o amor, o olhar, o gesto.
Foram-se para alimentar as rosas. Belo e jucundo
É o lírio. Cheirosa é a rosa. Bem sei, mas protesto.
Mais preciosa era a luz em teus olhos do que todas as rosas do mundo.
Dentro, lá dentro no fundo das trevas da morte
Vão ter o belo, o meigo, o bom. No Silêncio do nada
Vão desaparecer o inteligente, o gracioso, o forte
Eu sei. Mas não aprovo. E não estou resignada.
Edna St.Vincent Millay
Tradução: Alphonsus de Guimarães Filho
Lista de Preferências, de Bertolt Brecht
Lista de Preferências
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução de Paulo César Souza
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução de Paulo César Souza
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Elegia Desesperada, de Vinícius de Moraes
Elegia Desesperada
(O Desespero da Piedade)
Vinicius de Moraes
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito deles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
(O Desespero da Piedade)
Vinicius de Moraes
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito deles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Para escrever um simples verso
Para escrever um simples verso
Para escrever um simples verso,
é preciso conhecer muitas cidades, homens, animais
é preciso ter a alma aberta
para o voo dos pássaros
e ser capaz de perceber os gestos das flores
que se abrem ao amanhecer
Para escrever um simples verso,
é preciso viajar por regiões desconhecidas.
Estar preparado para encontros e desencontros inesperados.
É Preciso saber voltar a momentos de nossa infância
que até hoje não conseguimos compreender.
É preciso lembrar do que sentimos
quando ferimos alguém
que sempre nos desejou o melhor possível.
Para escrever um simples verso,
é preciso passar muitas manhãs diante do mar,
muitas tardes diante o pôr-do-sol
muitas noites diante de quem amamos
tudo isso para escrever um simples verso.
Para escrever um simples verso,
não basta lembrar-se do passado
é preciso saber esquecer
e ter paciência para esperar
até que suas lembranças
retornem novamente.
Porque um verso não é feito de memórias
ele transforma-se em nosso sangue,
e se confunde com a própria existência.
Só então chega o momento mágico
quando nasce a primeira palavra.
e ela traz consigo o verdadeiro poema.
Rainer Maria Rilke, poeta alemão.
VERDADES ESSENCIAIS
Desde que haja pobres
também sou pobre.
Desde que haja prisões,
também sou prisioneiro.
Desde que haja enfermos,
também sou fraco.
Desde que haja ignorância,
tenho de aprender a verdade.
Desde que haja ódio,
tenho de amar.
Desde que haja fome,
também estou faminto.
Do Livro Verdades Essenciais
Autor: Fulton Sheen
Editora Verus.
também sou pobre.
Desde que haja prisões,
também sou prisioneiro.
Desde que haja enfermos,
também sou fraco.
Desde que haja ignorância,
tenho de aprender a verdade.
Desde que haja ódio,
tenho de amar.
Desde que haja fome,
também estou faminto.
Do Livro Verdades Essenciais
Autor: Fulton Sheen
Editora Verus.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
EL SIGNO
EL SIGNO
No hables a todos de las cosas bellas y esenciales.
No arrojes margaritas a los cerdos.
Desciende al nivel de tu interlocutor, para no humillarle o desorientarle.
Sé frívolo con los frívolos...; pero de vez en cuando, como sin
querer, como sin pensarlo, deja caer en su copa, sobre la espuma
de su frivolidad, el pétalo de rosa del Ensueño.
Si no reparan en él, recógelo y vete de su lado, sonriente siempre:
es que para ellos aún no llega la hora.
Mas, si alguien coge el pétalo, como a hurtadillas, y lo acaricia,
y aspira su blando aroma, hazle en seguida en discreto signo de inteligencia...
Llévale después aparte; muéstrale alguna o algunas de las flores
milagrosas de tu jardín; háblale de la Divinidad invisible que nosrodea...
y dale la palavra del conjuro, el Sésamo, ábrete!, de la verdadera Libertad.
Amado Nervo
Livro: Plenitud.
ENCIENDE TU LÁMPARA
ENCIENDE TU LÁMPARA
En cuanto caiga la noche, enciende tu lámpara.
No permanezcas en la obscuridad.
Enciende cuidadosamente tu lámpara.
El viajero que pase, dirá: “cuánto reposo debe haber cerca de esa luz, y cuánta paz”.
La mujer solitaria que la distinga de lejos, pensará: “allí debe
anidar el amor; dos que se quieren son bañados por el mismo fulgor blando...”
El nino que la contemple, exclamará: “tal vez hay niños en redor
de la mesa, y leen bellos cuentos y miran maravillosas estampas”.
El ladrón furtivo murmurará con recelo: “allí vive un hombre
prevenido a quien no se puede atacar a mansalva”.
Muchos, al internarse en la selva, se sentirán confortados por tu luz.
En verdad te digo que es misericordioso, a las primeras sombras,
encender nuestra lámpara: la buena lámpara de que el Padre
ha provisto a los caminantes de la vida.
Amado Nervo
Livro: Plenitud.
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